quinta-feira, 8 de julho de 2010

Quantos anos quiser

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Era assim, eu olhava as crianças brincando e lembrava lembrava lembrava, lembraças boas, escutava uma voz suave, leve, doce dizer : - ô, tia!. E ainda assim eu estava distraida o bastante, envolvida intimamente com o lembrar.


Não tinham homens com mulheres, responsabilidades, trabalhos, projetos, bebidas alcoolicas, cigarros, drogas [além do xarope], nem sequer eu via poluição, não existia nada disso a dez anos atrás, que mundo lindo, que vida linda - não que agora não seja. A beleza mudou, só isso.

E eu ainda ouvia aquela voz, ia entrando, entrando, entrando, e de repente, algo puxa meu casaco e olho para baixo, não tão baixo, na altura da cintura mais ou menos, lindos olhos azuis, cabelos loiros, e o contínuo : - ô, tia! Abri um sorriso, e respondi, fale...

- Vem comigo, preciso te mostrar um lugar lindo!

- Vou sim, mas a gente tem pouco tempo.

- Esse lugar não precisa de tempo, fique calma, vem, vem...

- Tá bom, tá bom, me dê a mão.

- Olha só, se não é mágico!

- É sim, lindo, muito lindo - O problema é que eu não via nada além de algumas flores coloridas, uma lagoa, e um balanço de madeira preso a árvore.

- Vou sentar aqui, me balança?

- Só um pouco, tá? - E eu balançava enquanto ela ria, e ela ria, ria, ria, e dizia, mais alto, mais alto.

- Ei, parece que a gente tá voando, não é?

- É sim, o horario também.

- Tia...

- Oi?

- Borboletas, aquelas rosas sabe, as roxinhas também... Sabe?

- Sei sim, o que tem elas?

- Elas tem relógio?

- Elas não!

- Se eu for a lilás, você aceita ser a rosa?

E eu lembrava, e lembrava, e lembrava, então eu disse, hoje sim, e eu presenciava aquela lembrança, aquilo me fazia rir, e eu ria, ria ria ria, e a gente tomou sorvete e sujou a roupa, comeu cachorro quente e desenhou sorrisos com o catchup, andou na guia, atravessou a rua correndo, e aquilo tudo me fazia bem, muito bem, por que era mágico, com crianças, fica mágico.

- Ô, tia!!

- Oi?

- Obrigada viu?

- Ah, vem cá, me dá um abraço?

- Uhum.

- É que eu preciso dizer que você fez o meu dia ser o mais lindo de todos.

- É mesmo?

- Uhum

- Amanha, a gente vai ser o quê?


- A gente vai crescer, e sonhar também. Podemos imaginar, até lá a gente decide.

- Acho que quero dormir.

- Boa noite, dorme bem tá?

- Tá bom, tia, uma vez meu pai disse que a podemos ter a idade que a gente quer, sabia?

- Eu acho que tô descobrindo... - Colocando o cobertor sobre ela.

- Cobrindo tia, você tá me cobrindo!

Nostalgia

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Levantei meio indisposta. Não quis atender o telefone que tocava, e o toque aos poucos começou a me irritar, tirei o fio, deitei na cama, e fiquei ouvindo música, entre músicas e lágrimas, livros e uma interpretação bem ruim. O dia estava chuvoso, o ânimo também, talvez o sol tivesse levado tudo que existia de bom, vai saber.


Caminhei pela casa, o ar estava pesado, saí um pouco, uma volta por essas ruas desconhecidas era tudo que eu podia fazer, cheguei em casa e fiquei sabendo de pequenas novidades, grandes talvez, não me incluiam, isso não era surpresa, nesse dia não, acordei com ar de indiferente, talvez eu dormisse assim também.

A essa hora eu já estava meio embriagada, não conseguiria continuar lendo, nem sorrindo pra disfarçar - o que era pior. Não conseguia mais andar, pois um passo ia de encontro com o outro, sempre tropeçando, não dava pra fazer mais nada a não ser dormir. Dormir para ver se tudo passava, dormir para tentar acordar sorrindo, dormir para ver se eu ficava melhor, e saber que isso não aconteceria, me fazia dormir sem esperanças (...)

Outra chance

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Deviamos ter feito tudo diferente, mas não foi assim. Cá entre nós, até gosto desse sorriso que carrego comigo agora, das buscas por prazeres insanos, e de como você pode levar o sol de mim em pleno inverno.


Foi tudo uma forma de me mostrar como não valia a pena, como fez falta só me mostrou o quanto me iludi sozinha, e assim notei que faltava muito para que - sobre cacos de vidros - eu soubesse caminhar sem me cortar.

Passei dias entre ânsias, dores, crises comigo mesma, semanas sentada nessa rede que dá de frente pra uma rua onde nada acontece, até que ví a chuva cair, as flores nascerem, o sol se pôr, e enjoei de perder tempo.

Foi tudo uma má interpretação, eu poderia ter andado pelas ruas a madrugada inteira, ter tropeçado mais nas minhas próprias palavras, mas eu me contentei em te amar, em me perder, e te amando eu esquecia de tudo, e me perdendo eu não sabia mais achar o caminho, e não achando o caminho, esquecendo de tudo, eu não tinha o que fazer, para onde ir.

Eu fui bem maior que eu, aqui estamos nós outra vez, mas agora é pra eu lhe dar apoio, lhe ajudar, lhe dar a mão, e eu vou partir pra essa caminhada, de mãos dadas contigo, não porque preciso estar com você para ver um sorriso nascer no meu rosto, mas porque assim pode ser bem melhor - ou não. Como eu posso saber?

Não precisa prometer que irá pra sempre caminhar comigo nem nada, eu te dou a mão e vou, assim como está pedindo, mas me dê uma única segurança, se der errado, me deixe em casa, aonde me encontrou.

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- Alô


- Oi meu amor.

- Ei, desculpa te ligar de madrugada, acordei porque a tevê tava ligada, lembrei de ti, e não consegui dormir (...)

- Sem problemas, não costumo dormir antes das quatro mesmo.

- Foi ironia?

- Na verdade eu quis dizer: - Não consigo dormir, sem falar com você.

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Tantos planos, não sei como não tinha pensando antes que você faria parte deles, talvez porque o essencial é quase sempre invisível aos olhos. Tudo tão natural, pouco a pouco me tomou, uma entrega leve e linda, sem insistências, sem cobranças.



Tudo tão lindo, porque você fez com que fosse assim, não me canso de dizer eu te amo se estou tão feliz agora, a culpa é toda sua (...)

Me perder

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Não queria te enganar assim, estava blefando e nem me dei conta, perdão. Eu pensei que te queria e acreditei nisso, cheguei a entregar o meu destino nas tuas mãos para que você o unisse ao teu, você fez tudo certo, não há nada de errado contigo, agiu completamente como manda o figurino. Entretanto, a verdade é que eu nunca te quis.


O problema é que eu sou irrevogavelmente apaixonada por coisas imprevisíveis, não gosto nenhum pouco de coração anestesiado, essas coisas corriqueiras que colocam meus pés no chão.

Portanto dessa vez troque os discos, eu não quero ouvir mais essas músicas, pode sair daqui e carregar consigo esse teu modo de viver, enquanto isso eu vou saborear o prazer de me perder, quem sabe me perdendo eu te encontre novamente?

Isso, é amor.

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Eles eram uma coisa só, juntos eram preocupação, esperança, afinidade, segredos, carinhos, histórias, lembranças (...)


Ele acreditava nela, nos ideias, apoiava até, tinha medo de perder o controle, odiava a ver crescendo, a cada passo que ela dava, ele tinha uma certeza, de que logo não a teria perto todos os dias.

A vida ia traçando o destino onde ele já não podia interferir, ele cuidava de longe mas com o mesmo amor de sempre, todo o cuidado era pouco - muito.

Quando ela estava com medo corria até os braços dele, onde ele a abraça e a deixava segura.

Uma coisa tão linda, com planos para o futuro e tudo mais, um amor certamente eterno, a coisa mais linda que se pode existir, juntos eram pai e filha.